O BRINCAR

Infância, um período mágico, direito de todas as crianças. Mas será que todas as nossas crianças têm conseguido viver a infância de maneira plena e saudável.

Para isso não podemos esquecer uma situação tão importante e tão antiga: o ATO DE BRINCAR, esta atividade lúdica, onde a criança se envolve completamente, descobre o mundo e exercita como lidar com ele.

Hoje, o que vemos muito em nossa realidade são crianças que são praticamente mini-executivos e vivem em função de horários e compromissos, outras que passam várias horas em frente ao computador, algumas na rua perambulando sem ocupação, não vivendo efetivamente o que seria pertinente a uma infância sadia.

Sabemos que a criança precisa movimentar-se, usar a imaginação, o corpo, sua criatividade, percepção e emoção, para desenvolver-se.

Através do brincar, a criança não só utiliza o corpo, com todos os seus sentidos e movimentos, como o raciocínio que organiza a ação, criando significados, e este conjunto de ações mostra a importância do brincar na infância já que é o precursor de várias aprendizagens que servirão para a vida toda.

Temos como exemplo o DESENHAR, atividade muito freqüente na infância, que segundo Elvira Souza Lima na revista Sesc.Agosto 2007 nº2 ano 14 ,pg 40. “Todo o desenho tem uma ação: para a criança tem sempre uma história no desenho que ela faz. O desenho é uma narrativa: mesmo que para o adulto pareça uma representação estática, para a criança é ativo, dinâmico, tridimensional. Mesmo que a criança não fale nada enquanto estiver desenhando, ela está “pensando” no que desenha. Então, ao desenhar a criança trabalha com sua imaginação, cria novas imagens, desenvolve sua memória, organiza sua experiência para compreendê-la. O ato de desenhar não é, simplesmente, uma atividade lúdica, ele é, também, ação de conhecimento. O desenho é, pois, parte constitutiva do processo de desenvolvimento da criança.”

O ouvir e cantar músicas também é muito rico como brincadeira e subsidia aprendizagens importantes como “ o desenvolvimento da memória auditiva, do ritmo e da melodia, com realizações que estarão envolvidas na apropriação da leitura e escrita.” (Segundo Elvira Souza Lima)

Há também muitas brincadeiras que se expressam pelo movimento. A criança vai movimentar seu corpo e isso vai ajudá-la a formar conceitos de localização no espaço , como acima/abaixo; dentro/fora; perto/longe; e com o tempo e amadurecimento a lateralidade.

Todas estas atividades e muitas outras são importantes para o crescimento e desenvolvimento de todas as crianças e cabe à nós pais, professores, adultos em geral , pois afinal todos somos educadores, proporcionarmos espaço e tempo para que isto aconteça.

Assim estaremos contribuindo para um mundo mais humano.


Grandeza de Comportamento é a Melhor Lição

O mundo público, no qual a gente passa a maior parte do tempo, está desordenado, hostil, agressivo, bem pouco acolhedor. Já escrevi aqui que isto faz muito mal às crianças, que acabam confinadas e com muitos limites para viver.

Mas o mal não é só esse: a convivência entre adultos que circulam pelas cidades e utilizam os recursos também está bastante prejudicada, o que coloca em risco a vida civil no futuro próximo. E nesse tempo serão nossos filhos que viverão nesse ambiente.

A criança, que está atenta e de olhos bem abertos a essa vida, vê como os adultos se relacionam e se educa também com essa observação. À educação que ela recebe em casa e na escola é acrescida a essa que ela testemunha. Creio mesmo que a influência de tudo o que a criança presencia no mundo que a rodeia é bem maior do que a da televisão, que costuma ser a vilã quando contabilizamos as fontes de más influências na vida das crianças e no seu desenvolvimento. É que a criança sabe muito bem que o que vê na televisão, com exceção de noticiários, é ficção e o que testemunha nas ruas é a mais pura realidade, é a vida como ela é.

Interessante é o modo como os educadores costumam reagir quando se perguntam a respeito de como querem educar seus filhos ou alunos. Quase todos afirmam que gostariam que o filho fosse diferente do que observam por aí, que soubesse respeitar o mundo no qual habita, que pudesse colaborar para estabelecer boas relações de convivência com os outros, que pudesse, enfim, fazer diferença nesse mundo carente de relações respeitosas, que aprendesse a agir com a responsabilidade de cidadão. Mas quase todos também acreditam que, ao ensinar esses princípios e cobrar tais atitudes dos filhos, provocariam o isolamento social dele, fariam com que fossem considerados "babacas" por seus pares.

Essa atitude mostra uma grande impotência dos pais perante a tarefa educativa e perante os filhos. Eles querem que o mundo que vai receber seus filhos, seja melhor, mas não acreditam que o próprio filho possa contribuir para isso. Esperam que sejam os outros a fazer essa parte , que consideram difícil. Será que os pais acreditam que o filho possa ser melhor do que eles são e foram?

Esse é um requisito fundamental para educação.

Um fato que pude testemunhar nesta semana provocou esta reflexão.
Estava caminhando pelas ruas de meu bairro quando, em sentido contrário àquele em que eu ia, vinha uma mulher de uns trinta anos, segurando a correia de um cão. Ela não estava levando o cachorro para passear, estava sendo guiada por ele porque, logo percebi, era cega.

Em determinado momento, o cão mudou rapidamente de direção e foi até o meio fio da calçada. Esse movimento não esperado do cão guia surpreendeu a mulher, que pareceu ficar, por alguns segundos, um pouco desorientada. Abaixou-se, passou a mão pelo corpo do cão e percebeu que ele estava com a parte traseira um pouco abaixada. Estava fazendo cocô.

Eu já fiquei admirada com o fato de o cão ter sido treinado para não depositar as fezes no meio da calçada. Mas o mais emocionante ocorreu logo a seguir. Assim que o cão terminou de fazer sua necessidade, a mulher tirou do bolso um saco plástico e , tateando, encontrou e recolheu o cocô do cão.
A grandeza do comportamento dessa mulher vai além de um bom exemplo, o que, aliás, é tema de uma propaganda do governo na televisão. Ela agiu como uma cidadã responsável e madura, consciente de que o espaço público é de todos nós e, portanto, precisa ser cuidado por todos pelo bem estar coletivo. Impossibilitada de enxergar, essa mulher vê com clareza seu dever social, mesmo que seus direitos não sejam tão respeitados. E quantos são os que enxergam, mas não são capazes de ver sua implicação e seus deveres na relação com o espaço comum, não é verdade?


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de " Como Educar Meu Filho?" ( Editora Publifolha)

Texto extraído do jornal "Folha de São Paulo" do dia 07/ 07/ 2005 do caderno folhaequilíbrio.

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